PARA SABER MAIS ...

MEGALOSAURIPUS

 

Tanto a pista 1 da jazida de Pedreira / Amoreira, que na altura foi referida como integrando três pegadas consecutivas, como as pegadas tridáctilas encontradas nas jazidas de Algar dos Potes e Vale de Meios, foram referidas por Santos (1998) e por Santos et al. (2000), respectivamente, como tendo afinidade com o icnogénero Megalosauripus. Lockley et al. (2000) referem também que a pista de Pedreira / Amoreira pode ser incluída neste icnotaxon.

   

Pegadas atribuídas a teropodes e provenientes de jazidas do Cretácico inferior de Portugal foram (também) inferidas como tendo sido produzidas por autores megalossaurios. É o caso de parte da amostra de grandes pegadas tridáctilas do Albiano da jazida da Praia Grande do Rodízio, que Madeira e Dias (1983) sugeriram representarem a passagem do teropode Megalosaurus.  

 

Esta tendência para a atribuição de pegadas de teropodes, do Jurássico e do Cretácico, a teropodes megalossaurios foi seguida a nível mundial por vários investigadores (Calkin 1968, para pegadas do Jurássico final de Inglaterra; Walkden e Oppe 1969, para pegadas do Cretácico inferior de Inglaterra) que, sem formalizarem um nome específico para qualquer icnogénero, foram sugerindo que essas amostras representavam pegadas de “Megalosaurus”. Leonardi (1979) atribuiu pegadas do Cretácico inferior do Brasil a “megalossauroides”. Contudo, “nenhum destes nomes apresenta qualquer validade em termos de icnotaxonomia formal” (Lockley et al. 2000). Mensink e Mertmann (1984) atribuíram dois icnotaxa do Jurássico final das Astúrias (Espanha), Gigantosauripus asturiensis e Hispanosauropus hauboldi (com comprimento de 52 cm e largura de 36 cm) a enormes e pequenos “Megalosauroidea”, respectivamente (as enormes pegadas - até 135 cm de comprimento - incluídas por estes investigadores em Gigantosauripus, foram atribuídas por Thulborn (1990) e Lockley et al. (1994) a sauropodes).  

Pegadas encontradas no Cretácico inferior da Formação Sousa (Brasil) e atribuídas por Leonardi (1979) a "megalossauroides" (retirado de Leonardi 1979).

 

http://www.desdeasturias.com/

asturiasbasica/rutas.asp?idruta=1

 

 

 

  http://www.colungaturismo.com/10_

dinosaurios/dinosaurios_index.htm

 

Holótipo de Gigantosauripus asturiensis, atribuído por Mensink e Mertmann (1984) a um enorme “Megalosauroidea”. Mais tarde, Thulborn (1990) e Lockley et al. (1994) apresentaram vários argumentos favorecendo uma origem sauropode (retirado de Mensink e Mertmann (1984).  

 

Antunes (1976) sugeriu que 4 pistas formadas por pegadas tridáctilas de afinidade teropodiana que descobriu em sedimentos do Hauteriviano na jazida dos Lagosteiros poderiam constituir evidência de “Megalosaurus, ... comum na Europa desde o Jurássico médio ao Cretácico, ...ao qual pertencem, com toda a probabilidade, os autores das pistas em causa”. Como era vulgar na altura, incluiu esta amostra num outro icnogénero, Megalosauropus, instituído por Colbert e Merrilees (1967) para uma reduzida amostra do Cretácico inferior da Austrália que, como o nome sugere, teria (também) origem em teropodes megalossaurios. Lockley et al. (2000) consideraram que estas pegadas dos Lagosteiros “não são diagnósticas”, devendo ser apenas referidas como “pegadas de teropodes”.  

 

Casanovas et al. (1989), seguindo a classificação de Haubold 1971, dividiram as pegadas de teropodes em dois icnogrupos, Tyrannosauroidea e Megalosauroidea, com base na disposição das impressões dos dígitos. E cada um destes icnogrupos foi sub-dividido em vários icnotaxa de ordem inferior.

 

O primeiro nome aplicada o pegadas de teropodes do Cretácico de Espanha foi de Megalosaurus por Casanovas e Santafé (1971), para incluir várias pegadas tridáctilas com comprimento rondando os 30 cm, encontradas na jazida de EL Villar Poyales, na zona hoje conhecida por Icnitas 3 (Cretácico inferior de La Rioja).

Esquema de uma das pegadas de El Villar Poyales, atribuída a Megalosaurus por Casanovas e Santafé (1971) (retirado de Casanovas e Santafé 1971).

 

Mapa das pegadas encontradas na zonas Icnitas 3 da jazida de El Villar Poyales. As pegadas de maiores dmensões receberam o nome de Megalosaurus, como era tradição na altura (Casanovas e Santafé 1971). A pista a negro é atribuída a um teropode de reduzidas dimensões (comprimento médio as pegadas rondando os 10 cm) (retirado de Pérez-Lorente 2001).

 

Em 1974, esta amostra de El Villar Poyales e uma pista encontrada na jazida de Valdecevillo (La Rioja), na altura conhecida através de três pegadas consecutivas, foi incluída por Casanovas e Santafé em Megalosauripus. No ano seguinte, Brancas e Sentis colocaram à vista uma quarta pegada (Pérez-Lorente et al. 2001).

 

Em meados da década de 90 do século passado, outras grandes pegadas de afinidade teropodiana encontradas em Portugal, em níveis dos inícios do Jurássico final (Oxfordiano - Kimmeridgiano) tinham também sido incluídas no icnogénero Megalosauripus:  

 

. Jazida do Cabo Mondego (Lockley et al. 1996)

Nesta fotografia histórica, Jacinto Pedro Gomes analisa os “grandes fósseis muito curiosos” que um dos Directores da mina de carvão do Cabo Mondego tinha encontrado “sobre uma lapa de praia próxima”. Gomes (1915-1916) concluiu que se tratava de “rastos de saurios gigantescos”, impressos em sedimentos do Jurássico final (Oxfordiano) (Henriques 1998).  

 

 

Esquema de quatro pegadas Megalosauripus lusitanicum (sensu Lockley et al. 1996), do Cabo Mondego, que Nopsca (1923) tinha incluído em Eutynichnium lusitanicum (e que mais tarde Lockley e colegas (2000), na sua segunda revisão do icnogénero Megalosauripus, irão voltar a incluir em Eutynichnium lusitanicum, corrigido para E. lusitanicus por Thulborn (2001)). Estes exemplares fazem parte da primeira jazida com pegadas de dinossáurios descoberta em Portugal, relatada por Gomes em 1884 e descrita, num trabalho póstumo, em 1915-1916 por este investigador (e representam as primeiras pegadas do Jurássico final conhecidas na Europa). A amostra incluía provavelmente 14 pegadas preservadas como epirrelevos profundos num calcário margo-legnítico, preenchidas por arenito ferruginoso da camada sobrejacente, quase todas com impressão de metatarsos alongados e alguns exemplares com impressão de hallux, que formavam 3 ou 4 pistas. Alguns destes exemplares foram retirados e encontram-se no Museu Nacional de História Natural de Lisboa, outros terão desaparecido e raros encontram-se ainda in situ, quase sempre debaixo das areias de Buarcos. Excluindo a impressão dos metatarsos e do hallux, esta amostra tem um comprimento médio de 40 cm por 30 cm de largura (retirado de Lockley et al. 1996).

 

Gomes (1915-1916) publicou um mapa mostrando a localização das várias pegadas, algumas delas retiradas e conservadas actualmente no Museu de História Natural de Lisboa.

 

Esquema de Eutynichnium lusitanicum Nopsca 1923, segundo Haubold (1971). Lockley et al. (1996) incluíram este material em Megalosauripus lusitanicum.  

 

Mapa de pegadas (preservadas como hiporrelevos) e eventuais pistas descobertas na Pedra da Nau, Cabo Mondego, distribuídas por três camadas sucessivas de calcário margoso cinzento, segundo Lapparent et al. (1951). Nestas lages, repletas de fendas de contracção, poderiam, segundo estes investigadores, distinguir-se dois tipos de pegadas: umas com morfologia e dimensões semelhantes às pegadas descritas por Gomes (1915 - 1916), com impressão de hallux e comprimento total variando entre 60 e 70 cm; outras, com morfologia mais «esbelta» (ângulo de divergência II - IV inferior), comprimento total inferior, variando entre 30 e 40 cm. Algumas destas pegadas foram também retiradas e encontram-se no Museu do Instituto Geológico e Mineiro em Lisboa. Outras podem ainda ser observadas in situ. Lapparent et al. (1951) e Lapparent e Zbyszewski (1957) não tiveram dúvidas em atribuir estas pegadas ao teropode Megalosaurus; e foram mais longe: as pegadas de maiores dimensões teriam sido produzidas pela forma mais corpulenta, Megalosaurus pombali, enquanto que as pegadas mais graciosas teriam tido como autores teropodes da espécie de menores dimensões, M. insignis. Com base nestas sugestões, Haubold (1971) referiu-se às pegadas de maiores dimensões como Eutynichnium (Megalosaurus) pombali, “apesar de ser um nome híbrido osteológico e icnológico” (Lockley et al. 2000).  

 

Lockley et al. (1996) também incluíram em Megalosauripus lusitanicum  pegadas encontradas no Cabo Mondego e relatadas por Lapparent et al. (1951) preservadas como hiporrelevos, sem impressão de metatarsos alongados posteriormente nem de hallux. Mais tarde (2000), estes investigadores consideraram estas pegadas como ?Megalosauripus sp. (retirado de Lockley et al. 1996)  

 

. Jazida da Ribeira do Cavalo (Lockley et al. 1996, que, sem referirem directamente nenhum exemplar encontrado nesta jazida, apresentaram um esquema de uma pegada tridáctila proveniente do nível que colapsou entretanto).

Esquema de pegada tridáctila encontrada na jazida da Ribeira do Cavalo (Zambujal, Sesimbra). Originalmente, Lockley et al. (1996) incluíram este enorme exemplar em Megalosauripus lusitanicum. Mais tarde, tendo deixado «cair» esta icnoespécie, foi incluído em ?Megalosauripus sp. (Lockley et al. 2000). 

 

Mais recentemente, outras amostras de pegadas tridáctilas, quer integrando pistas, quer isoladas,  e provenientes de sedimentos do Oxfordiano - Kimmeridgiano, foram também referidas como podendo ser incluídas neste icnotaxon:  

. Jazida de Bouro I

Santos 1998, que referiu a existência de “uma pegada de teropode com uma provável afinidade Megalosaurídea” no local conhecido como “Pedras Negras”, onde surgem também pegadas de sauropodes, que Santos et al. (2000) incluíram na nova icnoespécie Brontopodus triangularis. Não foi apresentado qualquer esquema ou ilustração desta pegada, nem fornecidos mais pormenores. Posteriormente, Santos et al. (2000) referiram-se a “impressões tridáctilas, uma isolada e outras organizadas numa pista”, ..., salientando que como “uma identificação mais precisa não é possível porque o estado de conservação das marcas não o permite”, ... estes icnitos “testemunham a passagem de dois teropodes indeterminados”.  

Duas pegadas, mal preservadas, aparentemente integrando uma mesma «pista» (no caso de serem consecutivas, o passo será bastante elevado aproximando-se dos 2 m), podem ser atribuídas a teropodes de dimensões médias, já que o comprimento destas impressões ronda ou é inferior a 49 cm. Nesta mesma área encontram-se duas outras pegadas tridáctilas isoladas, com comprimento também inferior a 50 cm.

Encontrámos neste mesmo nível do Kimmeridgiano (Zbyszewski et al. 1961) duas pegadas tridáctilas subdigitígradas, que devem corresponder à impressão do pé direito de grandes teropodes, tendo em conta o elevado comprimento do dígito III (numa destas pegadas rondando os 44 cm).

 

. Jazida de Bouro I. 

Neste mesmo nível e a cerca de 300 m de distância, já junto ao mar, encontrámos em 1998, para além de pegadas que atribuímos a sauropodes, várias pegadas tridáctilas de afinidade teropodiana em melhor estado de preservação, com comprimento superior a 50 cm, que poderão eventualmente ser incluídas em ?Megalosauripus.

 

. Jazida da praia dos Salgados

Onde, em dois níveis distintos (final do Oxfordiano - inícios do Kimmeridgiano, Fatela 1990) encontrámos em 1997 uma pegada isolada e uma pista formada por três pegadas consecutivas, todas com comprimento superior a 50 cm, que sugerimos poderem ser incluídas em ?Megalosauripus.  

 

. Jazida de Bouro IV, também do Kimmeridgiano, descoberta por António José Xavier e que nos mostrou a sua localização em 1997. Para além da enorme dinoturbação provocada pelo intenso espezinhamento de sauropodes, encontrámos também várias pegadas tridáctilas de grande dimensão e alongadas, que podem apresentar convergência morfológica com o icnotaxon Megalosauripus.  

Antes ....

e depois ...

 

. Serra de Mangues  

Pegadas tridáctilas de origem teropode e de grande dimensão (algumas com comprimento rondando os 60 cm), descobertas em finais de 2002 pela família Ferrari num nível do Kimmeridgiano da Serra de Mangues, poderão também ser incluídas em ?Megalosauripus.  

 

Uma pista descoberta e descrita por Dantas et al. (1994) na jazida da Praia do Cavalo foi também incluída por Lockley et al. (2000) em Megalosauripus, embora a idade do estrato onde surge impressa seja ainda controversa (segundo Ramalho 1971, estes sedimentos terão sido depositados no início do Portlandiano; Lockley et al. (2000) sugerem uma idade do Kimmeridgiano).  

Esquema de parte da pista de teropode encontrada na jazida da Praia do Cavalo e descrita por Dantas et al. (1994). Segundo estes investigadores, as 11 pegadas tridáctilas, com comprimento médio de 66,7 cm e largura média de 56,1 cm, dispõem-se ao longo da pista revelando passos alternadamente curtos e longos, evidenciando um padrão de coxeamento. Estimamos um ângulo de passo rondando os 140º, para uma pista que pode ser classificada como se aproximando muito de wide-guage.  

 

PARA SABER MAIS ...

MEGALOSAURIPUS II