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PARA SABER MAIS ... |
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"A
nomenclatura das pegadas produzidas
por
dinossáurios teropodes há muito
que
está num estado de grande confusão".
Thulborn
2001
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Na
realidade, apesar de uma enorme proliferação de nomes atribuídos a pegadas de
origem teropodiana (Haubold 1984 apresentou uma lista superior a 60 icnogéneros
atribuídos a teropodes), poucos destes icnotaxa estão bem diagnosticados (e
muitos a partir de formas mal preservadas), de modo a permitirem distingui-los
de outros icnotaxa teropodianos. Para além disso, mesmo icnitos a que foram
atribuídos etiquetas icnotaxonómicas apresentam muitas vezes uma grande extensão
e variedade morfológica. Estes problemas começaram recentemente a ser
encarados por vários investigadores, numa
tentativa para «colocar alguma ordem» na classificação e nomenclatura das
pegadas de teropodes. Um
claro exemplo destas tentativas pode ser encontrado em Lockley et al. (1996,
2000), que reanalisaram os icnotaxa Megalosauripus
e Megalosauropus, bem como outros
icnogéneros que estes investigadores sugerem poderem representar as pegadas de
teropodes megalossaurios; e onde analisaram também o chamado “debate das
pegadas de megalossaurios” (Lockley 2000). |
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Estas
tarefas não são nada fáceis, por razões variadas e de natureza distinta: |
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| . Se há grupos dentro de Theropoda mal conhecidos, os megalossaurios constituem provavelmente o melhor exemplo. Tanto a sua anatomia, como as interrelações filogenéticas são muito mal conhecidas (Sereno et al. 1996; Sereno 1999; Holtz 2000) e o estatuto do clade Megalosauridae está, neste momento, num estado de «constante revisão» (Allain 2002). | |
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.
Até a sua extensão temporal tem passado por grandes alterações. Durante
muitos anos qualquer grande teropode, especialmente quando baseado em material
incompleto ou indeterminado, era geralmente incluído nos megalossaurios,
incluindo assim muitos taxa desde o Triássico final ao Cretácico final.
Consequentemente, várias formas de pegadas tridáctilas, provenientes de níveis
muito afastados temporalmente, foram sendo atribuídas a teropodes
megalossaurios. Mais tarde, estabeleceu-se a ideia de que os megalossaurios (Megalosaurus
e parentes próximos) tinham uma extensão temporal que se restringiria ao
intervalo entre os finais do Jurássico médio e os inícios do Jurássico
superior. O que implicou por exemplo, que pegadas encontradas fora deste limite,
especialmente em estratos do Cretácico inferior, fossem excluídas de afinidade
megalossaurídea, com base exclusivamente nesta razão de ordem temporal.
Actualmente, é considerado que até o clade mais inclusivo Megalosaurinae se
deve ter prolongado entre os inícios do Jurássico médio e meados do Cretácico
inferior (Allain 2002). |
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Como Lockley (2000b) acabou por reconhecer, não parecem existir características
morfológicas únicas / exclusivas que permitam distinguir inequivocamente as
pegadas de megalossaurios das pegadas de outros teropodes. Thulborn (2001)
concluiu: “Em resumo, não existe uma concepção muito definitiva de
megalossaurios ou das suas pegadas”. |
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| Mas
existem outros problemas. Por exemplo, foram introduzidos dois nomes (em duas ou
mais ocasiões, mas independentemente) que, aparentemente, são apropriados para
as eventuais pegadas de megalossaurios. Lessertisseur (1955) criou o nome
icnogenérico Megalosauripus para uma
pegada de teropode do Cretácico inferior da Alemanha; Casanovas e
Santafé
(1974) aplicaram também este nome a pegadas
de teropodes do Cretácico inferior de Espanha, encontradas na jazida de
Barranco Valdecevillo, perto de Enciso. Colbert e Merrilees (1967) instituíram o
icnogénero Megalosauropus para
incluir pegadas do Cretácico inferior da Austrália muito distintas das pegadas
Megalosauripus. Kaever e Lapparent
(1974), desconhecendo a criação deste icnotaxon, introduziram-no para pegadas
de teropodes do Jurássico final da Alemanha. |
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Pista formada originalmente por três pegadas consecutivas, encontrada na jazida de Valdecevillo, que Casanovas e Santafé (1974) sugeriram poder ser designada por Megalosauripus. A partir de 1976 a jazida passou a estar protegida por Iberduero (retirado de Moratalla et al. 1988). |
Posteriormente, em 1975, a limpeza e remoção das terras permitiu colocar à vista uma quarta pegada. |
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Esquema da pegada 2 da pista de Valdecevillo, com as setas indicando o local onde é mais visível que o lodo colapsou para dentro da pegada, obliterando a sua morfologia (retirado de Pérez-Lorente 2003). |
| Pérez-Lorente (2003) salienta que esta amostra não reflecte a estrutura esquelética autopodial do autor teropode, já que é visível que a lama / lodo pisados pelo animal convergiram para dentro das pegadas, o que é mais patente na parte distal do dígito III. Por outras palavras - estão presentes "elementos estranhos alheios à anatomia dos autopodes", que impedem definir um icnotaxon para esta amostra. | ||
| Através
de “uma revisão icnotaxonómica cuidadosa de todo o material relevante”,
Lockley et al. (1996) sugeriram que determinadas pegadas encontradas em estratos
do Oxfordiano - Kimmeridgiano da América do Norte, Europa e Ásia central, por
terem grande probabilidade de terem sido produzidas por autores megalossaurios,
deviam ser englobadas em Megalosauripus
(sensu Lockley et al. 1996). Ao mesmo tempo, concluíram que o icnotaxon Megalosauropus
se deve restringir ao material descrito por Colbert e Merrilees (1967) e/ou a
outras pegadas semelhantes. Lockley et al. (1996b), Lockley et al. (1996c) e
Meyer e Lockley (1997) voltaram a confirmar estas sugestões. |
| Colbert
e Merrilees (1967) instituíram
o icnotaxon Megalosauropus
broomensis para incluir várias pegadas tridáctilas, algumas formando
pistas, do Cretácico inferior (Hauteriviano - Barremiano) da Gantheaume Point,
perto de Broome, Austrália. Apesar de Glauert (1952) ter publicado uma pequena
nota sobre algumas destas pegadas tridáctilas, só em 1967 é que Colbert e
Merrilees descreveram esta amostra escassa: tridáctilas, relativamente
alongadas, com impressões de dígitos proporcionalmente longos e esguios. A
maior das pegadas analisadas por estes investigadores tinha cerca de 38 cm de
comprimento e integrava uma pista com ângulo de passo rondando os 150º e uma
passada de quase 2 m. Long (1998) referiu que, entretanto, foram encontradas
mais pegadas com morfologia idêntica e nesse mesmo nível arenítico em
Broome.
Esperando por uma revisão formal de todo este material (Thulborn in
press), Long salientou que algumas destas pegadas Megalosauropus
broomensis alcançam os 53 cm de comprimento, com ângulo de divergência
interdigital entre 35 e 45º e que o “dígito II é consideravelmente mais
longo do que os dígitos III e IV”. Segundo
Lockley et al. (2000), Megalosauropus
broomensis apresentará “uma fórmula falangeal bastante extraordinária
de 3 - 4 - 5 para os dígitos II, III e IV” (tal como diagnosticada por
Colbert e Merrilles (1967). Estes investigadores lançaram a ideia de que o
material incluído nesta icnoespécie poderá ser “não diagnosticável para
além de «pegadas de teropodes»”. |
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Mapa
das pegadas e pistas identificadas por Colbert e Merrilees (1967) como Megalosauropus
broomensis expostas em sedimentos areníticos da jazida de Gantheaume Point,
perto de Broome (Austrália) (modificado de Colbert e Merrilees 1967). |
Esquema
do holótipo de Megalosauropus broomensis
do Hauteriviano - Barremiano de Broome, Austrália (retirado de Colbert e
Merrilees 1967). |
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Lockley
et al. (1996, 2000), tendo em conta a prioridade histórica de Megalosauropus
Colbert e Merrilees 1967 e verificando que muitas outras formas muitas
distintas, tanto do Jurássico como do Cretácico, foram também incluídas
neste icnogénero, e esperando uma reavaliação e emenda do material da Austrália,
restringem o material incluído em Megalosauropus
aos exemplares do Cretácico inferior da Austrália ( e a pegadas que se venham
a revelar muito idênticas). “Contudo, só a primeira icnoespécie a ter
recebido nome, Megalosauropus broomensis,
é válida”. Outras icnoespécies incluídas posteriormente em Megalosauropus,
como M. teutonicus, M.
(?Eutynichnium)
gomesi, M. uzbekistanicus, M.
brionoensis “não podem ser consideradas válidas”, porque as pegadas são
morfologicamente muito diferentes do material da Austrália e “é óbvio, a
partir das descrições e ilustrações, que isso acontece” (Lockley et al.
1996).
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Um dos «novos» exemplares de Megalosauropus broomensis, com 53 cm de comprimento (retirado de Long 1998). |
| Weems e Bachman (1997) relataram a ocorrência de várias pegadas tridáctilas num nível do Cretácico inferior (provavelmente Aptiano) da Formação Patuxent, Virgínia, caracterizadas por "uma divergência relativamente estreita entre os dígitos II e IV e por um dígito médio alongado", e sugerindo uma afinidade teropode. |
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| Um dos exemplares atribuídos a Megalosauropus sp. (retirado de Weems e Bachman 1997). |
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Estes
investigadores compararam o exemplar com melhor preservação,
sobrepondo-o, à escala, com 9 icnotaxa atribuídos a teropodes e ou
têm aproximadamente a mesma idade ou "apresentam semelhanças
anatómicas com os nossos exemplares", concluindo que
Huanglongpus e Megalosauropus representam as formas mais
semelhantes. Sugerem também que "Megalosauropus, os nossos
exemplares e Huanglongpus podem ser interpretados como simples
variantes de um único padrão de pé, em substratos firmes,
moderadamente firmes e brandos, respectivamente". Como
Megalosauropus foi descrito antes de Huanglongpus,
Weems e Bachman (1997) referem o material da Virgínia a Megalosauropus,
apesar desta amostra apresentar cerca de metade das dimensões
comparativamente com o material tipo de Megalosauropus (cerca de
18 cm de comprimento para 32,5 cm, respectivamente).
Weems e Bachman (1997) comentaram também a eventual afinidade da amostra Megalosauropus, referindo que as "dimensões relativamente modestas" da amostra incluída neste icnotaxon e o "dígito III relativamente alongado" não constituem o que será de esperar encontrar numa pegada de um teropode carnossáurio (note-se que, entretanto, pegadas com comprimento superior a 50 cm, dos estratos de Broome, Austrália, foram recentemente referidos a Megalosauropus broomensis). Concluem que, "com base na estrutura do pé dos teropodes conhecidos para o Cretácico inferior, é mais provável que as pegadas Megalosauropus tenham sido produzidas por um coelurossaurio ou um ceratossaurio". Posteriormente, Weems e Bachman (2004), atribuíram este conjunto de pegadas cf. Megalosauropus a um teropode ornitomimídeo, abandonando portanto uma afinidade ceratossaurídea e restringindo os eventuais autores a esta linhagem de coelurossaurios. |
| Comparação, à escala, entre uma das pegadas tridáctilas da Formação Patuxent com 8 géneros (9 espécies) de icnotaxa de teropodes (retirado de Weems e Bachman 1997). |
| Diedrich (2004), ao descrever uma nova jazida com pegadas atribuídas a iguanodontídeos e a teropodes, identificou estas últimas como representando "o icnogénero Megalosauropus Kaever e Lapparent 1974". Esta jazida situa-se numa antiga pedreira, em Obernkirchen (nordeste da Alemanha), e está datada do Cretácico inferior (Berriasiano). Diedrich (2004) identificou várias pistas e pegadas isoladas, com comprimento variando entre 25 e 45 cm. As pegadas tridáctilas estão bem preservadas, com impressões das almofadas falangeais e das garras distais. O dígito III está ligeiramente curvado para fora do seu eixo longo. "A progressão dos vários teropodes é nitidamente digitígrada", e a passada é relativamente longa para dois conjuntos de três pegadas sucessivas (variando entre 192 e 230 cm). Para estas duas pistas o ângulo de passo é de 175 e 170º, respectivamente, com a largura total das pistas situada entre 40 e 36 cm. |
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| Esquema de uma das pistas de origem teropode encontradas na pedreira de Obernkirchen e que Diedrich (2004) referiu a Megalosauropus isp. (modificado de Diedrich 2004). |
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Diedrich (2004) comparou o estilo de preservação desta amostra tridáctila com as pegadas incluídas também em Megalosauropus encontradas na jazidas de Barkhausen e de Munchehagen. Nesta última jazida as impressões surgem bem fundas, e as pegadas, nem da pista holótipo, nem de uma segunda pista, apresentam impressões das almofadas falangeais, nem impressões nítidas das garras distais. Segundo Diedrich, as amostras representam pistas de teropodes Megalosauropus, umas deixadas em lodos húmidos da planície tidal (Barkhausen) e as outras em areias húmidas (Munchehagen), enquanto que as pistas de Obernkirchen estão bem preservadas em areias ligeiramente húmidas da facies arenosa da planície tidal. Diedrich (2004) concluiu que estas diferenças condicionaram o tipo de preservação das pegadas, e que todas estas amostras representam o icnotaxon Megalosauropus. |
| Fotografia e esquema de uma das pegadas incluídas em Megalosauropus por Diedrich (2004) (retirado de Diedrich 2004). | ||
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Lockley
et al. (2000) procederam a uma revisão formal de Megalosauripus,
em que: .
Sustentaram que Megalosauripus
Lessertisseur 1955 deve ser considerado um nomen
nudum ou um nomen dubium; e por
isso, “está disponível para ser utilizado” .
Está implícito que Megalosauripus
Casanova-Cladellas e Llopis 1974 deve também ser considerado um nomen
dubium .
Sugerem que pegadas do Jurássico final originalmente incluídas por Kaever e
Lapparent (1974) e por Gabuniya e Kurbatov (1982) no icnotaxon
Megalosauropus devem ser transferidas para
Megalosauripus (sensu Lockley et al. 2000) .
As pegadas Eutynichnium Nopcsa 1923,
que Lockley et al. (1996) tinham considerado como
um nomen nudum e que seriam
incluíveis em Megalosauripus (sensu
Lockley et al. 1996), voltaram a merecer uma inclusão no icnogénero Eutynichnium,
considerado agora válido. |
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Lockley
(2000b) reanalisou o taxon
Buckeburgichnus maximus Khun 1958, baseado numa única pegada do Cretácico
inferior da Alemanha, e a que Lessertisseur (1955) tinha chamado Megalosauripus.
Para além de emendar o nome para Bueckeburgichnus
e de considerar este icnotaxon válido, este investigador considerou que o
material tipo é distinto, por exemplo, de Eutynichnium
lusitanicum, “constituindo um forte argumento de que nunca houve qualquer
boa razão histórica ou morfológica para a atribuição de pegadas do Cretácico
à categoria conceptual de megalossaurio” (Lockley et al. 2000). |
| Thulborn
(2001) mostrou “que Bueckeburgichnus
maximus Kuhn 1958 se baseou num exemplar erradamente identificado como o holótipo”
e concluiu que “o nome correcto deste taxon deve ser Megalosauripus
maximus”. Aceitando esta conclusão, isto significa que o icnotaxon Megalosauripus
deve ser apenas aplicado à “muito característica pegada de dinossáurio
formalmente identificada como
Bueckeburgichnus”. E que “todas as outras pegadas incluídas em “Megalosauripus”
necessitam uma nova nomenclatura, apesar da sua revisão repetida e extensa
empreendida desde 1996”. Formalmente, e aceitando que o nome Megalosauripus
foi incorrectamente aplicado por Lockley et al. (2000) a uma grande amostra de
pegadas, deveríamos utilizar o nome entre aspas até que um novo nome seja
estabelecido para todo
(ou parte) este material. Esperando pela resposta de Lockley e
colegas, optamos por aceitar o icnotaxon Megalosauripus
(sensu Lockley et al. 2000) como válido e por esta razão (ainda) não
utilizamos as aspas. |
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