PARA SABER MAIS ...

"MORFOTIPO B"

JAZIDA DE VALE DE MEIOS 

   

As pegadas que sugerimos poderem ser incluídas num morfotipo distinto representam, aparentemente, uma amostra reduzida. Parecem distinguir-se da restante amostra de pegadas tridáctilas pela presença consistente de uma impressão do dígito III que se prolonga muito para além da linha unindo as extremidades distais dos dígitos exteriores. Por outro lado, o ângulo de divergência interdigital II - IV parece ser, em média, superior ao da restante amostra. As três pistas (3, 9 e uma situada na zona não mapeada) que integram este “morfotipo B” apresentam também diferenças que sugerimos poderem ser significativas - ângulo de passo consistentemente mais elevado, largura total das pistas inferior.  

Para a amostra que inclui as pegadas que integram as pistas 3 e 9, o ângulo de divergência interdigital total é, em média, de 62º.  

Uma das pegadas que integra uma pista localizada na zona não mapeada e que sugerimos representar um morfotipo distinto da maioria da amostra encontrada neste nível.

A simples observação visual parece confirmar estes dados métricos e angulares, de pegadas individuais e de pistas - as pegadas do “morfotipo B” são mais esbeltas, graciosas, com menor superfície plantar, com dígitos relativamente mais esguios, formando pistas em que um pé está praticamente à frente do outro, sem ser detectável qualquer sinal de irregularidade, com um estilo de progressão bípede tipicamente teropodiano.

Pista 3. 

Pegada 18 que integra a pista 3.

 

A simples observação visual parece confirmar estes dados métricos e angulares, de pegadas individuais e de pistas - as pegadas do “morfotipo B” são mais esbeltas, graciosas, com menor superfície plantar, com dígitos relativamente mais esguios, formando pistas em que um pé está praticamente à frente do outro, sem ser detectável qualquer sinal de irregularidade, com um estilo de progressão bípede tipicamente teropodiano.

De facto, em relação à restante amostra encontrada neste nível, não ocorre para esta pegadas variação em relação a medidas médias: o comprimento médio é de 56 cm para as pegadas que integram as pistas 3 e 9. Se incluirmos as pegadas isoladas 4, 20, 22, 26, 130, o comprimento médio é de 54 cm (com valores extremos de 51 e de 59 cm). Isto significa que se as diferenças morfológicas assinaladas forem reais e não resultarem de  características extramorfológicas / artefactos resultantes da preservação, estas pegadas  não devem representar alterações alométricas de um mesmo icnotaxon.

Para as pegadas que integram as pistas 3 e 9, a relação entre comprimento e largura é, em média, de 1,30. Para as cinco pegadas isoladas que incluímos também no “morfotipo B”, este valor é, em média de 1,41. E, para uma das pegadas que integra uma das pistas não mapeadas, este valor é de 1,57. Para o total das pegadas incluídas neste morfotipo, a razão comprimento / largura ronda 1,43 (N =12). Em comparação com o valor médio de 1,3 para 84 pegadas que propomos representarem o morfotipo mais comum, não parece haver diferença significativa nesta razão.  

Pegada isolada 130.

Pista 9.

 

Mas ela existe. Tendo em conta que o ângulo de divergência II - IV é ligeiramente superior para o “morfotipo B”, seria de esperar que a relação comprimento / largura destas pegadas fosse inferior à da restante amostra, ao contrário do que ocorre. De facto, mesmo com uma largura aparentemente mais elevada, a razão comprimento / largura é superior porque o dígito III se prolonga muito para além das extremidades distais dos dígitos exteriores, no que Weems (1982) chamou “extensão do dígito III”. “Certas pegadas mostram características óbvias e típicas. O icnologista deve tentar descrever estas características e determinar se elas são únicas e distintas em comparação com outras pegadas. Ou seja, tratar a pegada numa perspectiva fenomenológica - as características distintas da pegada influenciam e definem em parte as características que devem ser medidas”. “Devemos dar bastante atenção às nossas observações iniciais empíricas” (Lockley 2000).

 

Pegada 69 que integra a pista 9.

 

Infelizmente, para as pegadas isoladas e para as pegadas que integram as pistas 3 e 9 não são discerníveis almofadas digitais, tornando impossível verificar a razão entre o comprimento impresso do dígito III e o comprimento total dos icnitos. Mas para a pegada que ocorre na zona não mapeada, que integra uma pista, esta razão é muito superior a 1,56, que representa o valor médio inferido para uma amostra de 5 pegadas que incluímos no “morfotipo mais comum”.  

A inferência da co-ocorrência neste mesmo nível de dois morfotipos distintos de grandes teropodes requer análises mais completas e cuidadosas. Sabemos que são muitos os factores que podem afectar a morfologia das pegadas. Também sabemos que não devemos esperar encontrar uma grande variabilidade morfológica, com significado taxonómico, em intervalos estratigráficos restritos (Lockley 2000). Mas, como este investigador salienta, “esta regra não é de modo nenhum infalível” (Lockley 2000). Baseamos a inferência de dois morfotipos especialmente em duas características, que poderão (ou não) ser diagnósticas:

. um dígito III extremamente alongado, prolongando-se bem para além das extremidades distais dos dois dígitos externos

. a ocorrência de pistas (3,9 e a pista na zona não mapeada) estreitas, regulares, com ângulo de passo elevado

Características suplementares (ângulo II - IV ligeiramente superior; razão comprimento / largura mais elevada; impressões de dígitos, especialmente os exteriores, mais esguios, menos robustos, mais adelgaçados distalmente; superfície plantar mais reduzida) poderão constituir características diagnósticas adicionais.  

Uma das pegadas que integra uma pista localizada na zona não mapeada e que sugerimos representar um morfotipo distinto da maioria da amostra encontrada neste nível.

Tendo em conta que todas as pegadas tridáctilas que ocorrem na jazida de Vale de Meios (tal como na jazida de Algar dos Potes) apresentam características diagnósticas que as permitem incluir no icnogénero Megalosauripus, sugerimos que a amostra do “morfotipo B" possa representar uma nova espécie deste icnogénero.  

Comparação entre as pegadas 46 (pista 7) e 72 (pista 9), que incluímos no "morfotipo mais comum" e no "morfotipo B", respectivamente.

 

E se existem duas icnoespécies, isto significa que terão ocorrido, provavelmente co-ocorrido, dois tipos de grande teropodes num mesmo habitat e numa mesma idade. Não há razão para que a dois icnotaxa distintos não correspondam dois taxa osteológicos diferentes.  

Tendo em conta que ocorre uma «mistura» entre as pistas dos dois tipos e que a ocorrência de pistas paralelas e com o mesmo sentido permite inferir que estes teropodes apresentavam um comportamento gregário, deslocando-se em grupo organizado, então estes bandos integravam duas espécies distintas. Se este for o caso, será a primeira vez que temos evidência de grupos multiespecíficos progredindo e interagindo em conjunto, para os dinossáurios carnívoros (evidência de uma manada formada por dois icnotaxa distintos de sauropodes foi relatada recentemente, e pela primeira vez, para o Jurássico médio da jazida de Ardley - Day et al. 2003).

Mas não devemos excluir outras hipóteses. Toda esta amostra poderá ser incluída no mesmo icnotaxon e a aparente variação pode ser devida, não a diferenças de idade (a dimensão média das pegadas do “morfotipo B” encaixa-se perfeitamente nas dimensões médias da restante amostra, (incluindo a presente em Algar dos Potes), mas, por exemplo, a diferenças de sexo. Mas, se este fosse o caso, poderíamos especular que, nesta população, um dos sexos estava subrepresentado e que ocorreria um domínio numérico de um dos sexos. E que na jazida de Algar dos Potes apenas estava representado um dos sexos, o dominante em termos numéricos.