PARA SABER MAIS ...

EVIDÊNCIA DE IMPRESSÕES DE PROTO-PENAS  EM PEGADAS DO JURÁSSICO INFERIOR ?

I

 

 "Impressões regulares dentro da impressão abdominal 

assemelham-se a tufos adjacentes de pelo ou penas, 

cada um com 1 cm de comprimento e 3 mm de largura".

 (Sabath e Gierlinski 2005).

Um dos mais famosos exemplares do Connecticut Valley, analisado pelo «pai» da icnologia, Hitchcock, mostra evidência de um dinossáurio que se agachou / descansou. Trata-se do exemplar catalogado com as siglas AC 1/7, em exibição no Amherst College, Massachusetts e que foi encontrado na jazida de Lily Pond, do Jurássico inferior da Formação Portland.

A  sua história icnotaxonómica é um pouco atribulada. Originalmente, Hitchcock (1858) deu-lhe o nome de Anomoepus major (este icnogénero é actualmente atribuído a ornitisquianos (Olsen e Rainforth 2002). Na sua última publicação, Hitchcock (1865) sugeriu que esta amostra teria uma origem aviana primitiva, embora anteriormente a tenha interpretado como uma impressão deixada por um marsupial que se sentou. Lull (1915, 1953) incluiu o exemplar em Sauropus barrattii, atribuindo-o a um ornistiquiano. Olsen e Baird (1986) consideraram este icnotaxon como um nomen vanum, retornando a uma afinidade com Anomoepus. Haubold (1971, 1984) sugeriu uma afinidade teropode. Gierlinski (1994, 1996), que analisou in situ esta amostra, apresentou vários argumentos para uma origem teropode para AC 1/7, actualmente aceite consensualmente, sugerindo que deve ser atribuído a Eubrontes minusculus. Mais tarde, Gierlinski (1997) atribuiu as pegadas ao icnogénero Anchisauripus e sugeriu que teriam sido produzidas por um teropode ceratossaurio.

 

Fotografia do exemplar AC 1/7, actualmente no Museu Pratt do Colégio Amherst de Massachusetts, e esquema interpretativo (retirado de Gierlinski 2001).

 

O exemplar AC 1/7 inclui duas pegadas de pés, plantígradas (comprimento de 42 cm, incluindo o metapodium, e 22,2 cm, excluindo-o), estando a esquerda incompleta, porque o bloco ali está partido. Funcionalmente, os pés serão tridáctilos, mas observa-se também a impressão do hallux. Observam-se ainda impressões da região púbico-abdominal e do isquion.

Atrás da impressão abdominal, surge a impressão da calosidade isquíadica, com uma forma de coração. Tanto os teropodes como os ornistiquianos bípedes possuem uma almofada carnuda desenvolvida por debaixo da extremidade do isquion, que funcionalmente (mas não anatomicamente) se assemelha às nádegas dos primatas. Mas, normalmente, o abdómen não surge impresso, já que estes dinossáurios caminhavam com uma postura totalmente erecta, ao contrário do que acontece com a grande maioria dos répteis modernos.  

 

Esquema interpretativo do exemplar AC 1/7, quando o teropode se agachou, deixando as impressões do pé esquerdo (a) e do pé direito (b), a impressão do abdómen (c) e a impressão isquíadica (d) (retirado de Gierlinski 1997).

 

Gierlinski (1996) salientou que, apesar do exemplar ter sido analisado por várias vezes, "ninguém tinha ainda mencionado a sua característica mais notável: a impressão do abdómen (mais precisamente, da região púbico-abdominal) com impressões semelhantes a pelos/penas". Segundo este investigador, a impressão púbico-abdominal, com 32 cm de comprimento, é mais larga na região abdominal (anterior) e mais estreita na região púbica (posterior). O fragmento direito anterior da impressão abdominal está sobreposto pelo dígito II do pé direito. "Por outras palavras, parece que o abdómen se sobrepôs parcialmente a esse dígito". Como esta impressão apresenta uma rotação da fora da linha média da pista, Gierlinski (1996) inferiu que o autor se sentou de forma irregular, voltando ligeiramente o corpo para a direita e apoiando o abdómen parcialmente sobre o pé direito. "Consequentemente, o abdómen não suportou o mesmo peso que os pés e a calosidade isquíadica na postura de descanso. Provavelmente, isto terá sido responsável pela boa preservação das impressões semelhantes a penas". Estas impressões "têm geralmente mais de 1 cm de comprimento" e 3 mm de largura, "e a maioria surge agrupada perto da margem esquerda da impressão púbica".

 

Esquema interpretativo do exemplar AC 1/7, segundo Gierlinski (1996, de onde foi modificada a figura). As setas assinalam a eventual presença de impressões regulares ... assemelhando-se a tufos adjacentes de pelo ou penas, cada um com 1 cm de comprimento e 3 mm de largura" (Sabath e Gierlinski 2005).

 

Fotografia das impressões que ocorrem ao longo da margem do abdómen do exemplar AC 1/7. Cada um dos filamentos tem cerca de 10 mm de comprimento (retirado de Gierlinski 2001). Esquema interpretativo das mesmas impressões (retirado de Gierlinski 1996).

Gierlinski (2001) confessou que no início estava relutante em apresentar estas conclusões e durante quatro anos analisou outros cenários que poderiam ter levado à produção de impressões deste tipo.

Segundo Gierlinski (1996), estas impressões são muito distintas das produzidas por invertebrados e também não se assemelham a marcas de arrastamento da pele. "As impressões semelhantes a penas encontradas na impressão púbico-abdominal assemelham-se fortemente às deixadas pela cobertura de mamíferos e aves. Parecem ter sido produzidas por estruturas mais flexíveis que escamas, mais finas do que penas do voo e mais largas do que pelos mamalianos. Provavelmente, seriam semelhantes à plumagem das aves não voadoras, mas adivinhar a sua natureza anatómica exacta com base no presente material icnológico será contraprucedente".

 

Posteriormente, Gierlinski (1997) acabou por comparar estas impressões com tipos particulares de aves modernas. "Cada impressão é formada por vários diminutos filamentos, apresentando uma estrutura semelhante a um pincel". Gierlinski comparou estas impressões com as produzidas por várias aves modernas e concluiu que elas se assemelham mais às impressões deixadas pelas semiplúmulas, um tipo de pena intermédio entre «verdadeiras» penas  e penugem , já que apresentam normalmente uma estrutura semelhante a um pincel, com diáfise flexível e barbas com uma disposição espaçada.

Gierlinski (1997) sugeriu que "é possível supor que estruturas semelhantes a semiplúmulas se tenham originado em primeiro lugar na cobertura de um dinossáurio não aviano". Posteriormente, Gierlinski (1997b) sugeriu que, tendo em conta a idade, tanto do exemplar AC 1/7 como das pegadas Plesiornis (que considerou terem várias características sugerindo uma afinidade aviana ou revelarem um produtor não aviano, "possivelmente um bom candidato para ter evoluído para uma criatura voadora"), "devemos procurar antepassados avianos com penas entre as formas iniciais" (de teropodes) e não entre os teropodes tetanuranos mais avançados - Maniraptora. Consequentemente, as características avianas dos maniraptoranos podem ter sido herdadas a partir do seu antepassado comum com as aves".

Segundo Gierlinski (2001), que entretanto tomou conhecimento dos sucessivos teropodes não avianos com penas de Liaoning, as impressões semelhantes a um pincel da região abdominal de Massachusetts são muito semelhantes às que surgem no fémur do exemplar de Berlin de Archaeopteryx e no compsognatídeo Sinosauropteryx.

Fotografia retirada de Gierlinski (2001).

 

Outras explicações alternativas:

. Quando o animal se sentou / agachou, provocou uma deformação na fina lâmina de algas que cobria o lodo, produzindo, neste filme orgânico, várias pregas ou vincos, que acabaram por se assemelhar a impressões de proto-penas / penas. Sabath e Gierlinski (2005) voltaram a examinar este exemplar em 2004 e concluíram que " não se observam estruturas biogénicas da suposta lâmina de algas. As impressões semelhantes a penas rodeiam apenas a impressão abdominal e estão ausentes nas margens das pegadas. Esta presença selectiva de supostas penas no abdómen é difícil de explicar se se devessem a um artefacto resultante das propriedades da superfície do substrato".

. Também foi sugerido que essas impressões semelhantes a penas são apenas marcas do arrastamento das escamas do animal. Sabath e Gierlinski (2005) também rebateram esta explicação: "esta interpretação ignora que as «marcas de arrastamento» estão situadas dentro da impressão abdominal e que não se assemelham a arranhadelas paralelas e que não estão separadas umas das outras.  E também são mais curtas que as típicas marcas de arrastamento e não apresentam qualquer rebordo terminal". Para reforçar os seus argumentos, estes investigadores imprimiram vários tipos de penas em substratos relativamente pouco encharcados e verificaram que os resultados mais semelhantes ocorrem com semiplúmulas. Também observaram a impressão deixada por um pato juvenil, apenas com uma ligeira plumagem, e concluíram que a impressão do abdómen é muito semelhante à do exemplar AC 1/7.  

Sabath e Gierlinski (2005) insistem que "... estas impressões ao longo do abdómen revelam uma estrutura filamentosa, semelhante a um pincel. Os tufos repetidos assemelham-se às semiplúmulas das aves recentes. A interpretação de AC 1/7 como a impressão de um dinossáurio que se agachou deixando impressões de proto-penas ao longo do abdómen parece ser a mais consistente com a morfologia das impressões e está de acordo com o padrão reconhecido da filogenia dos dinossáurios e o tempo de origem das proto-penas".

 

De facto, vários investigadores têm levantado objecções a esta interpretação. 

Lockley et al. (2003) sugeriram que "estas finas estrias são provavelmente impressões de escamas que ocorrem alongadas como resultado do movimento do integumento (pele) contra o substrato".

 

Martin e Rainforth (2004), num resumo intitulado "Uma impressão de um teropode descansando que também é uma impressão de locomoção: o caso do exemplar AC 1/7 de Hitchcock", referiram este exemplar a Fulicopus lyellii (icnoespécie que surgiu originalmente em Hitchcock 1845, mas sem qualquer descrição) e apresentaram vários argumentos para contrariar a sugestão de Gierlinski da presença de «proto-penas» na face ventral do produtor teropode. Segundo estes investigadores, as impressões de penas, que Gierlinski sugeriu terem sido formadas à medida que o integumento ventral do animal se arrastou no solo lodoso, serão estruturas de libertação da pressão resultantes do movimento do autor depois de se ter agachado. "Evidências para a nossa hipótese incluem:

. Uma crista elevada, alargada, com  finas ripples (mm) sobrepostas (dando uma aparência de «pena») ao longo do lado esquerdo da impressão metatarsal do pé direito

. Cristas semelhantes, mas mais pequenas, ao longo dos lados esquerdos do pé esquerdo e da impressão isquíadica

. O lado direito da impressão do descanso está relativamente mais profunda do que o lado esquerdo".

"Estas  estruturas e o padrão global das impressões são portanto consistentes com as produzidas por um teropode quando parou, se sentou sobre os metatarsos, depois deslocou o peso para a direita quando se levantou e prosseguiu o movimento para a frente. Esta interpretação não exclui a possibilidade do produtor ter penas; contudo, marcas de arrastamento das penas teriam uma aparência completamente diferente quando comparadas com as impressões exibidas por este exemplar" (Martin e Rainforth 2004).  

Mas, Kundra (2004) salientou que as impressões filamentosas associadas com este exemplar AC 1/7 "representam a mais antiga evidência de dinossáurios com penas". Segundo este investigador, as morfologias destas estruturas filamentosas correspondem ao estádio II de Prum (1999) e suportam a hipótese de que "as morfologias plumáceas evoluíram antes da origem da ráquis e das barbas". 

 

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