JAZIDA DA PRAIA DO SALGADO

 

Os depósitos continentais contêm um registo icnológico único e ímpar da vida em ecossistemas terrestres, que espelha a evolução, sucessão e progresso da vida.  Contudo, as ligações entre o registo osteológico, a biodiversidade, comportamentos e o registo icnológico raramente têm sido exploradas, porque era regra considerar que os icnofósseis ou não ficam tipicamente preservados e/ou não se conseguem atribuir a organismos determinados. 

 

"Como afirmou Alexandre o Grande, há quase 2500 anos, "não existem 

limites para a capacidade do espírito humano". É tempo de conquistar 

a nossa ignorância - como é que os icnofósseis estão expressos no 

registo geológico e que dados podem fornecer para compreendermos 

a evolução da vida. E sem ossos !"

Hasiotis 1998

A descoberta da jazida do Salgado, na zona sul da praia (já pertencente ao concelho de Alcobaça), a cerca de 8 km a sul da Nazaré, ocorreu em finais de 1996, durante uma saída de campo do nosso Grupo de Paleontologia. Em três níveis calcários sucessivos do Jurássico superior encontrámos várias pegadas, algumas integrando pistas, atribuíveis a diferentes grupos de dinossáurios.  

 

Corte estratigráfico das arribas do Salgado, segundo Fatela (1990), com indicação da localização dos três níveis calcários com pegadas. Segundo este investigador, as diferentes litologias dispõem-se inicialmente numa sequência de margas, argilas margosas, arenitos finos a siltitos carbonatados, a que se sucede uma série de calcários compactos, onde se encontram as pegadas,  terminando, na parte superior, com calcários oncolíticos.

 

Localização dos três níveis calcários sucessivos com pegadas de dinossáurios.

 

Lamelibrânquios encontrados num dos níveis com pegadas.

Icnofósseis resultantes da actividade de crustáceos.

Oncólitos.

Nerineias.

Gastrópodes.

Lignite, encontrada num dos níveis com pegadas.

Corais.

Icnofóssil de invertebrado, encontrado no nível superior com pegadas.

Assim, e de cima para baixo, vamos encontrando fósseis atribuídos à actividade de algas (oncólitos), de invertebrados típicos de águas marinhas (lamelibrânquios, gastropodes, incluindo Nerineias), a que se sucedem corais e até lignite nos próprios sedimentos pisados pelos dinossáurios. Estes vertebrados terrestres frequentariam ambientes litorais, com abundante vegetação, encharcados periodicamente por águas salobras.  

 

Mais uma vez, estamos perante pegadas preservadas durante uma fase transgressiva correspondente a passagem do Oxfordiano para o Kimmeridgiano (cerca de 154,7 milhões de anos, segundo Harland et al. 1990), nos inícios do rifting que terá dado origem à abertura do Atlântico Norte. E, por ironia do destino, se são as condições sedimentológicas que ocorrem nas alturas em que o nível das águas começa a subir que potenciam a formação e a preservação de pegadas, é também esta mesma água que constitui actualmente o principal agente erosivo que as vai destruindo, aparentemente sem qualquer solução à vista ...  

 

PARA SABER MAIS ...

      TRANSGRESSÕES E PRESERVAÇÃO  DAS PEGADAS

Esquema das pegadas  encontradas em três níveis calcários sucessivos. Pistas e segmentos de pistas identificados estão assinalados a diferentes cores.

   

No nível superior observam-se pelo menos 3 segmentos de pistas, todas integrando pegadas tridáctilas e algumas pegadas isoladas.  

A pista 1, a mais saliente, é formada por 10 pegadas, 9 das quais consecutivas, com comprimento médio de 33 cm. As impressões dos dígitos são muito esguias, longas, terminando por impressões de garras aguçadas. O elevado ângulo de divergência total dos dígitos (em média, 91º) explica uma largura aparentemente elevada para pegadas que são atribuíveis a teropodes (L / W = 0,95 em média). A margem posterior das pegadas está mal impressa, sendo bastante menos profunda do que a parte correspondente aos dígitos. A superfície plantar destas pegadas é muito reduzida.  

Um ângulo de divergência II - IV elevado reflecte as potencialidades adaptativas da superfície de apoio da extremidade das patas dos autores relativamente ao estado do substrato (relevo, consistência, inclinação, etc.). Por esta razão, é aceite consensualmente que o ângulo interdigital total é um discriminador pobre quando pretendemos distinguir os produtores das pegadas.

   

O substrato pisado pelo animal deveria estar bastante fluído e encharcado à superfície, mas compactado em profundidade:

. quando o bípede retirou os autopodes, sedimentos terão entrado / escorregado para dentro das impressões deixadas pelos dígitos

. os dígitos II - IV apresentam ângulo de divergência elevado

. o ângulo de passo é relativamente baixo para uma pista de teropode (em média, 144º)

. não são detectáveis figuras de deslizamento

. não se observa a impressão do hallux (dígito I) nem, em várias das pegadas, a impressão correspondente à extremidade distal dos metatarsos  

As pegadas não são apenas uma impressão / contacto da sola do pé com um substrato - resultam da uma interacção cinética do autopode com o substrato. Factores muito variados, como velocidade, postura, estilo de progressão, comportamentais (grávida, com fome, doente, coxeando, segurando uma presa, caçando, necrofagando, ...) têm grande influência nas pegadas que eventualmente fossilizarão. Mas as condições do substrato serão as que consequências mais significativas terão nas morfologias e tipos de pegadas. O estado de saturação de água será uma condição muito influente, assim como os vários tipos de compactação e o tipo / natureza dos sedimentos.

Depois de apoiar o dedo, o lodo fluido escorre para dentro da impressão, que fica mais estreita e afilada. A percepção da qualidade da preservação das pegadas é portanto um assunto importante, quando pretendemos fazer inferências relativamente à afinidade taxonómica dos autores (que pode ser utilizada para estudos icnotaxonómicos e paleoecológicos).

 

Mesmo em condições de substrato bastante encharcado, o teropode deslocava-se a uma velocidade relativamente rápida (passada / altura de anca aproximando-se de 1,8), que estimamos em cerca de 9,8 km/h, o que pode explicar a maior pressão exercida sobre as extremidades dos dígitos em relação à parte distal dos metatarsos. Esta progressão relativamente rápida, aproximando-se do que Thulborn (1990) chamoutrote (intermédia entre “caminhar” e “correr”), pode também estar relacionada com a necessidade do animal, para manter mais facilmente o equilíbrio e não “escorregar”, afastar os dígitos laterais do central, mais do que é típico para as impressões dos teropodes. E pode ter resultado numa pista aparentemente “anómala”, com ângulo de passo muito baixo e grande largura interna.  

 

   À medida que os dinossáurios foram ressurgindo como animais ágeis, 

bem coordenados, tem havido uma modificação no sentido de que as pegadas

/ pistas também fornecem dados importantes sobre o seu comportamento quando vivos".

Lockley 1991

As dimensões e morfologia das pegadas e a configuração da pista sugerem a passagem de um carnívoro gracioso, com altura de anca rondando 1,5 m, peso inferior a 500 kg, ágil, com membros posteriores e cauda relativamente longos.  

PARA SABER MAIS ...

DADOS SUPLEMENTARES - PEGADAS E PISTAS DE TEROPODES - NÍVEL 1

 

A pista 2, formada por pegadas tridáctilas de menor dimensão, com comprimento ligeiramente superior à largura (L/W = 1,05), quase simétricas, com impressões de dígitos mais alargados, curtos e sem marcas de garras terminais, deve ter afinidade ornitopodiana. A passada é proporcionalmente curta. Actualmente, a maior parte das pegadas que integram esta pista está debaixo de alguns dos blocos que vão rolando.  

PARA SABER MAIS ...

PISTA 2 DE AFINIDADE ORNITOPODE

  

A pista 3 é formada por pegadas tridáctilas idênticas, em morfologia e dimensões, às da pista 1. Mas estas pegadas apresentam uma particularidade - observamos a impressão do hallux, dirigido posteromedialmente, e da parte distal dos metatarsos, sugerindo uma passagem sobre substratos ainda mais brandos, em que os pés do teropode se afundavam mais, já que até as próprias pegadas são bastante mais profundas.

 

 

PARA SABER MAIS ...

http://www.brown.edu/Administration/News_Bureau/1998-99/98-123g.html

 

Podem-se ainda observar algumas outras pegadas tridáctilas, mais ou menos isoladas, que provavelmente integram pistas tapadas pelos blocos. É interessante constatar que todas estas pegadas e pistas encontradas neste nível superior revelam a passagem de dinossáurios bípedes progredindo no mesmo sentido e com uma orientação que caí num ângulo muito restrito, sugerindo uma passagem em simultâneo, em grupo. E, especialmente para os teropodes, existem poucas evidências de comportamento gregário, ao contrário do que sucede para os dinossáurios herbívoros, ornistiquianos e sauropodes.  

Orientação e sentido das pistas e segmentos de pistas identificados no nível 1.

PARA SABER MAIS ...

O REGISTO ICNOLÓGICO E COMPORTAMENTO GREGÁRIO ENTRE TEROPODES

   

Nos níveis 2 e 3 encontramos impressões de grande dimensão, ovais, mal preservadas (com poucos detalhes da anatomia dos autopodes dos seus produtores), mas que devem corresponder à passagem de quadrúpedes do grupo dos sauropodes. Algumas destas pegadas, com quase 1 m de comprimento, apresentam a típica morfologia dos pés (semi) plantígrados destes dinossáurios; forma oval  a sub-triangular, mais longa do que larga; impressão do dígito 1 / ungual mais longa e nítida do que a dos restantes dígitos /unguais, maior profundidade na parte interna, ligeira rotação externa.

Estes sauropodes, com impressões de pés com quase 1 m de comprimento, teriam uma altura de anca rondando os 4 m (L x 4), para um peso total que se ultrapassaria as 40 toneladas.  

 

Em primeiro plano, pegadas de sauropodes encontradas no nível intermédio (2). No momento em que a fotografia foi tirada, procedíamos ao mapeamento das pegadas encontradas no nível mais inferior (3).

 

PARA SABER MAIS ...

DADOS SUPLEMENTARES SOBRE AS PEGADAS (E ? PISTAS) DE SAUROPODES

 

Três pegadas tridáctilas sucessivas, mal preservadas (só visíveis em alturas de maré muito baixa), ocorrem no nível 2, e representam a passagem de um autor teropode de grande dimensão - altura de anca aproximando-se dos 3 m, a que corresponderia aproximadamente um peso de 1500 kg. No nível 3 identificámos apenas uma pegada tridáctila, que apresenta dimensões e morfologia muito semelhantes às da pista encontrada no nível superior. Eventualmente, e tendo em conta as suas dimensões, morfologia e a idade dos níveis em que ocorrem, esta amostra poderá ser incluída em Megalosauripus.

 

   

PARA SABER MAIS ...

DADOS SUPLEMENTARES  - AS PEGADAS E PISTA DE GRANDES TEROPODES

 

A atribuição destas pegadas a sauropodes está de acordo com a identificação, nestes mesmos níveis, de pegadas tridáctilas de teropodes de grandes dimensões, representando provavelmente mais um exemplo da icnofacies Brontopodus - uma associação de icnitos de grandes carnívoros e de sauropodes, que ocorre repetidamente em rochas carbonatadas depositadas em ambientes marinhos costeiros de baixa paleolatitude, sugerindo uma relação ecológica em que os grandes predadores atacavam ou necrofagavam esses herbívoros, presas mais habituais.

 

A queda constante de grandes blocos impossibilita actualmente um mapeamento completo da jazida, especialmente das pegadas e pistas encontradas no nível superior (1).

O acesso a esta jazida, localizada na parte sul da praia dos Salgados, é relativamente difícil e uma visita ao local deve ser rodeada de algumas precauções. Actualmente, o acesso por terra é quase impossível, pelo que se deve tentar chegar à jazida pela praia, quando a maré ainda está a descer, para que a saída se possa realizar em condições de segurança. Para além da roupa e sapatos adequados, é essencial não realizar a visita de forma solitária e ter bastante cuidado na descida através das rochas ao local (na zona assinalada pela seta). Os pescadores locais fornecem habitualmente indicações preciosas.

 

 

A jazida dos Salgados poderá representar mais um ponto de interesse cultural e de atracção turística para o concelho de Alcobaça. Pela nossa parte, temos divulgado a jazida em acções que desenvolvemos no âmbito do programa Geologia no Verão (1999), em visitas guiadas para os Professores e restantes Funcionários da nossa Escola e até a alguns icnologistas estrangeiros, como o Dr. Pérez-Lorente. Um bom almoço no restaurante da praia, com uma vista extraordinária, complementa normalmente estas saídas.

 

Em níveis ligeiramente mais recentes (Kimmeridgiano), ocorrem também abundantes pegadas e pistas de dinossáurios em jazidas localizadas nas Serras de Mangues e do Bouro.